quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Natália Leal: estou desconfiada com D'Alessandro

Editora do Diário Catarinense se emociona com a volta do meia argentino, mas tem dúvidas sobre o futuro da relação entre ele e o Inter


Natália Leal: estou desconfiada com D'Alessandro Félix Zucco/Agencia RBS
Foto: Félix Zucco / Agencia RBS  
 
Estou desconfiada com D'Alessandro. Não queria estar, mas estou.
A desconfiança tem um poder destrutivo. Vocês se conheceram, se apaixonaram, estão planejando o casamento em Paris e a lua de mel entre Zaquintos, Esquíato e Santorini. Mas ele (ou ela) marcou um jantar e desmarcou em cima da hora, depois apareceu com o telefone no silencioso e cheio de senhas. No dia do aniversário de namoro, esqueceu o presente. Dois meses depois, pediu um tempo. Alguma coisa se quebrou. Se você estiver loucamente apaixonado, provavelmente vai achar que "tudo bem, vai ser só um tempo, estaremos juntos em breve fazendo as mesmas coisas de novo". Se for cético (e calejado) como eu, talvez passe outra coisa pela sua cabeça.
Ver D'Alessandro no Salgado Filho, com o bumbo da Guarda Popular, pode encher os olhos de lágrimas — e o coração de esperança. É um expoente da alma do Inter, um dos grandes líderes da história do clube. É aquele que vai nos conduzir de volta à Série A? Acho que não. Primeiro, porque não consigo enxergar como "alma do Inter" alguém que resume o retorno ao clube em que ganhou 12 títulos com um "tenho um contrato a cumprir". Segundo, porque, desde ontem, tudo que vejo me leva a crer que D'Alessandro não fica para 2017.
O empréstimo ao River Plate nos mostrou que o argentino é homem de palavra, que honra seus compromissos — quando lhe convém. Teria pago, neste ano, a dívida de gratidão com o clube que o formou caso não tivesse problemas com a direção colorada? Acho que não. Mas aproveitar negócios de ocasião também é profissionalismo, e isso D'Ale fez muito bem. Foi campeão, deixou seu nome na história do River outra vez. Voltar a Porto Alegre faz parte do processo, afinal, na prática, é preciso fazer o combinado para honrar o contrato. Só que, neste momento, o Inter precisa de mais do que alguém que apenas honre o contrato. Não há espaço para desconfianças. É arriscado voltar a planejar o casamento em Paris. Vai que daqui a pouco vocês precisem dar um tempo de novo?

Minha desconfiança não anula nada do que vivi com o Inter enquanto D'Alessandro vestia a nossa 10. Poucos jogadores me deram tantas alegrias com a camisa colorada quanto o gringo. A canhota poderosa, la boba para cima dos adversários, os gols em Gre-Nais, o estilo passional. Tudo me fez chorar — e ainda faz. E, assim como toda a torcida do Inter, sou grata por isso. Acontece que um pouco de ceticismo (e de caldo de galinha) não faz mal a ninguém. O Inter não depende de D'Alessandro, nem ele pode fazer algo pelo Inter sozinho. Se o time puder contar com a liderança dele no vestiário, ótimo. Que venha e se entregue, como já fez em muitos momentos, e que nos dê muitas alegrias, que nos coloque de novo na elite do futebol brasileiro, que comemore mais um título. Mas se for apenas para "cumprir o contrato", que deixe esse espaço para outros jogadores. A obrigação que tinha com o Inter, D'Ale já cumpriu — e muito bem. Não precisamos de um "mas" na história dele com o Inter. Não há motivos para se tornar mais um ídolo maculado, como Falcão.
Os ciclos se encerram, as coisas mudam. Se D'Alessandro ficar, torcerei. Se não, a vida segue. Talvez seja hora de fazer planos para uma lua de mel na Toscana ou na Côte d'Azur em outra companhia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário