quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Das glórias às polêmicas, Piffero prova que time grande também pode cair

Presidente vivenciou pior ano da história do clube em meio a posicionamentos fortes, até admitir seus erros, após o rebaixamento à Série B do Brasileirão, no domingo

 

 




Cabisbaixo, Vitorio Piffero ingressa na sala de entrevistas do Giulite Coutinho e só lhe resta admitir: "Só sei que errei. Errei e errei muito". O discurso abalado surge como uma espécie de desfecho ao presidente, após o primeiro rebaixamento da história do Inter, concretizado no último domingo, com o empate em 1 a 1 com o Fluminense. Serve também para baixar a guarda de suas falas anteriores, confiantes e assoberbadas, de um dirigente com trajetória vitoriosa. Mas que amarga a responsabilidade da pior mancha da história do clube. O abatimento nítido do presidente era prova concreta da esperança que se esvaiu e se transformou em conformidade com a queda. Após a entrevista, ainda na sala de imprensa do Giulite Coutinho, o presidente também garantiu que não há brecha jurídica para recurso no caso Victor Ramos, ainda que os advogados sigam trabalhando no processo. Do costumeiro discurso inflado de confiança e com uma certa pitada de arrogância, o mandatário passou à humildade e ao pesar de aceitar a responsabilidade pelo golpe mais duro da história do clube.

 

u quero pedir desculpas ao torcedor. Todos os erros são de responsabilidade do presidente. Tomei uma decisão pensando em fazer o melhor para o Inter. Só sei que errei. Errei e errei muito.  Quero dizer ao nosso torcedor que nunca perdi a fé de que não seríamos rebaixados. Mas fomos. Quem me conhece sabe. Não sou arrogante. Quem perde ganha todos os adjetivos dados. Nós erramos. Foi um segundo turno muito dolorido para todos nós. Eu tenho a confiança que unidos, nós voltaremos à Série A – afirma o presidente.

Piffero deixará seu terceiro mandato como presidente da pior mancha da história do clube, é verdade. Mas a mácula com o primeiro rebaixamento não é capaz de apagar os feitos anteriores do mandatário. Glórias em gestões passadas, erros e polêmicas na gestão atual. O dirigente deixa o cargo em meio à reprovação plena – por óbvio – do associado. Na eleição presidencial, às vésperas da queda, o candidato da situação, Pedro Affatato, foi derrotado com uma lavada histórica por Marcelo Medeiros, presidente eleito com 94,7% dos votos.

Confira abaixo um resumo da trajetória do dirigente no Beira-Rio: 

Taças e mancha de gestões passadas

Presidente do Internacional Píffero com a Taça do Mundial de Clubes (Foto: Divulgação / Site Oficial do Internacional)Piffero, no Mundial em 2010 (Foto: Divulgação / Site Oficial do Internacional)

Como vice de futebol, entre 2003 e  2006, o dirigente fez parte da diretoria que conquistou o primeiro título da Libertadores e do Mundial, com Fernando Carvalho como presidente. Depois, foi a vez do próprio Piffero assumir o principal cargo da hierarquia colorada e comandar o clube nas conquistas da Recopa, em 2007, da Sul-Americana, em 2008, e no bi da Libertadores, em 2010.

O ano de 2010, festejado com todo o direito, também traz uma mancha, ainda que menor, em comparação à Série B. Com Piffero de presidente, Carvalho como vice de futebol e Celso Roth como técnico – tal qual boa parte de 2016 – o Colorado rumou ao Mundial para um vexame histórico. Foi o primeiro clube brasileiro eliminado na semifinal do torneio, ao ser derrotado por 2 a 0 pelo Mazembe, do Congo.

rejeições de técnicos

Mano Menezes Sport x Cruzeiro Série A (Foto: Marlon Costa / Pernambuco Press)Declaração de Piffero causou mal-estar com Mano Menezes (Foto: Marlon Costa / Pernambuco Press)

A verdade é que a gestão Piffero foi conturbada antes mesmo de tomar posse, de fato, do clube. Ainda em 2014, o presidente, recém-eleito, sinalizou preferência por contar com Tite. Acabou por causar desconforto a Abel Braga, então treinador responsável por entregar o Inter na Libertadores de 2015 a seu biênio, que devolve o Colorado a Marcelo Medeiros na Série B.

O calvário em busca prosseguiu com uma série de "nãos" de Tite, Abel, Vanderlei Luxemburgo e de Mano Menezes, que antes preterido, chegou a dizer que jamais trabalharia com a Piffero como presidente. Sem muitas opções, o clube contratou Diego Aguirre. E até mesmo o uruguaio virou alvo de críticas, por adotar um esquema muito ofensivo. 

fato novo e goleada histórica

Gre-Nal 407 Grêmio Inter Campeonato Brasileiro Arena Vitório Piffero (Foto: Diego Guichard/GloboEsporte.com)Piffero após o Inter perder o Gre-Nal por 5 a 0 na Arena do Grêmio (Foto: Diego Guichard/)

Aguirre levou o Colorado à semifinal da Libertadores, mas não resistiu à queda para o Tigres, com derrota por 3 a 1 no México. Acabou demitido, numa busca por um "fato novo", às vésperas do Gre-Nal do segundo turno do Brasileirão. O Inter acabou derrotado numa goleada histórica por 5 a 0 para o maior rival. Ao final do jogo, assumiu a responsabilidade pela troca de técnico. 

– Sem dúvida. Se tivéssemos ganho, a decisão seria correta. Como perdemos foi errada. O fato novo não deu certo – afirmou, para depois completar. – Na realidade, é preciso ver onde está errado. Acho que a decisão foi correta, talvez o momento não. Eu assumo a responsabilidade e tomo as decisões. Nem sempre acerto. Dessa vez errei.

Trocas no futebol

Fernando Carvalho Celso Roth Ibsen Pinheiro Inter (Foto: Tomás Hammes / GloboEsporte.com)Parte da "Swat" montada para escapar da degola (Foto: Tomás Hammes / GloboEsporte.com)

A falta de padrão tático, em meio às passagens de quatro treinadores – Argel, Falcão, Celso Roth e Lisca – desponta como fator direto para a queda em 2016. Mas a verdade é que o próprio departamento de futebol do Colorado vivenciou uma enxurrada de transformações e cisões ao longo da temporada. Remanescente de 2015, Carlos Pellegrini caiu depois do empate em 2 a 2 com o Fluminense, que também decretou a saída de Falcão.

O primeiro vice eleito Pedro Affatato assumiu brevemente como vice do departamento, até dar lugar à "Swat" colorada, força-tarefa convocada pelo mandatário para livrar a equipe da Série B. E que fracassou, sob o comando do vice Fernando Carvalho, do diretor de futebol Ibsen Pinheiro e do executivo Newton Drummond, o Chumbinho.

Enxurrada de polêmicas e "fuga" do rebaixamento


Em meio ao calvário da saga mal-sucedida para livrar o Inter do primeiro rebaixamento de sua história, o presidente se viu envolto em meio a uma série de declarações e posicionamentos polêmicos, todos encerrados com a queda. Em especial, nesta reta final de Brasileirão. Ao longo da temporada, o mandatário optou pelo silêncio e pelo afastamento dos microfones. O GloboEsporte.com resgata algumas delas abaixo:

> Time grande não cai

Em suas raras manifestações durante o ano, Piffero procurava evitar até menções à palavra rebaixamento. Às vésperas da derrota por 4 a 2 para o Cruzeiro, em Minas, o mandatário chegou a ressaltar que o Colorado jamais cairia à segunda divisão. A justificativa? Sua própria grandeza, como um dos únicos que não haviam caído, ao lado da Raposa, do Santos, do São Paulo e do Flamengo.

– O Cruzeiro também é outro time grande. Nós nunca caímos e vamos manter assim. Torço pelo Cruzeiro e tenho certeza que o Inter também vai sair dessa situação – disse o presidente, à época.

> Na conta da CBF

Após um longo período sem falar após as partidas, Piffero rompeu o silêncio na derrota por 1 a 0 para o Corinthians. E mesmo diante de uma campanha com um total de 17 derrotas, em que o clube permaneceu 14 sem vencer e chegou a completar um turno com apenas duas vitórias, o presidente adotou discurso agressivo. Longe de apontar erros, tratou de vociferar contra a arbitragem, após um pênalti duvidoso em desfavor do Inter, convertido por Marlone.

– Mais uma vez, o Inter vem a São Paulo e é garfado pela arbitragem. Em 2005 foi assim, 2009 foi e hoje de novo. Três jogos decisivos e nós violentamente garfado. Pênalti totalmente inexistente, inventado pela arbitragem. Enquanto houver esperança, vamos lutar. Os jogadores foram briosos, se esforçaram, mas a conta irá para a CBF mais uma vez – reclamou.

> Campeonato incompleto

Em meio ao luto pela tragédia com o avião da delegação da Chapecoense, que deixou 71 mortos na Colômbia, o elenco colorado, unido, se posicionou para que não houvesse a última rodada do Brasileirão, por solidariedade e por abalo com a catástrofe. Após o posicionamento do grupo, o mandatário interveio e até apoiou a manifestação, com uma ressalva: não abriria mão da permanência Série A. O campeonato, na visão do dirigente, ficaria "incompleto".

– O Inter apoia a manifestação dos jogadores. Estamos abalados por essa catástrofe. Podia ser com qualquer um. Temos um sentimento que não pode mais ter futebol em 2016. A perda é muito grande, mas ficamos sujeitos às ordens da entidade. Não estou abrindo mão (da Série A), só colocando um sentimento. O campeonato estaria incompleto – disse o mandatário.

 

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