Das glórias às polêmicas, Piffero prova que time grande também pode cair
Presidente
vivenciou pior ano da história do clube em meio a posicionamentos
fortes, até admitir seus erros, após o rebaixamento à Série B do
Brasileirão, no domingo
Cabisbaixo, Vitorio Piffero ingressa na sala de entrevistas do Giulite Coutinho e só lhe resta admitir: "Só sei que errei. Errei e errei muito". O discurso abalado surge como uma espécie de desfecho ao presidente, após o primeiro rebaixamento da história do Inter, concretizado no último domingo, com o empate em 1 a 1 com o Fluminense. Serve também para baixar a guarda de suas falas anteriores, confiantes e assoberbadas, de um dirigente com trajetória vitoriosa. Mas que amarga a responsabilidade da pior mancha da história do clube.
O abatimento nítido do presidente era prova concreta da esperança que se esvaiu e se transformou em conformidade com a queda. Após a entrevista, ainda na sala de imprensa do Giulite Coutinho, o presidente também garantiu que não há brecha jurídica para recurso no caso Victor Ramos, ainda que os advogados sigam trabalhando no processo. Do costumeiro discurso inflado de confiança e com uma certa pitada de arrogância, o mandatário passou à humildade e ao pesar de aceitar a responsabilidade pelo golpe mais duro da história do clube.
u quero pedir desculpas ao torcedor. Todos os erros são de
responsabilidade do presidente. Tomei uma decisão pensando em fazer o
melhor para o Inter. Só sei que errei. Errei e errei muito. Quero dizer
ao nosso torcedor que nunca perdi a fé de que não seríamos rebaixados.
Mas fomos. Quem me conhece sabe. Não sou arrogante. Quem perde ganha
todos os adjetivos dados. Nós erramos. Foi um segundo turno muito
dolorido para todos nós. Eu tenho a confiança que unidos, nós voltaremos
à Série A – afirma o presidente.
Piffero deixará seu terceiro
mandato como presidente da pior mancha da história do clube, é verdade.
Mas a mácula com o primeiro rebaixamento não é capaz de apagar os
feitos anteriores do mandatário. Glórias em gestões passadas, erros e
polêmicas na gestão atual. O dirigente deixa o cargo em meio à
reprovação plena – por óbvio – do associado. Na eleição presidencial, às
vésperas da queda, o candidato da situação, Pedro Affatato, foi
derrotado com uma lavada histórica por Marcelo Medeiros, presidente
eleito com 94,7% dos votos.
Confira abaixo um resumo da trajetória do dirigente no Beira-Rio:
Taças e mancha de gestões passadas
Piffero, no Mundial em 2010 (Foto: Divulgação / Site Oficial do Internacional)
Como
vice de futebol, entre 2003 e 2006, o dirigente fez parte da diretoria
que conquistou o primeiro título da Libertadores e do Mundial, com
Fernando Carvalho como presidente. Depois, foi a vez do próprio Piffero
assumir o principal cargo da hierarquia colorada e comandar o clube nas
conquistas da Recopa, em 2007, da Sul-Americana, em 2008, e no bi da
Libertadores, em 2010.
O ano de 2010, festejado com todo o
direito, também traz uma mancha, ainda que menor, em comparação à Série
B. Com Piffero de presidente, Carvalho como vice de futebol e Celso Roth
como técnico – tal qual boa parte de 2016 – o Colorado rumou ao Mundial
para um vexame histórico. Foi o primeiro clube brasileiro eliminado na
semifinal do torneio, ao ser derrotado por 2 a 0 pelo Mazembe, do Congo.
Declaração de Piffero causou mal-estar com Mano Menezes (Foto: Marlon Costa / Pernambuco Press)
A
verdade é que a gestão Piffero foi conturbada antes mesmo de tomar
posse, de fato, do clube. Ainda em 2014, o presidente, recém-eleito,
sinalizou preferência por contar com Tite. Acabou por causar desconforto
a Abel Braga, então treinador responsável por entregar o Inter na
Libertadores de 2015 a seu biênio, que devolve o Colorado a Marcelo
Medeiros na Série B.
O calvário em busca prosseguiu com uma série de "nãos"
de Tite, Abel, Vanderlei Luxemburgo e de Mano Menezes, que antes
preterido, chegou a dizer que jamais trabalharia com a Piffero como
presidente. Sem muitas opções, o clube contratou Diego Aguirre. E até
mesmo o uruguaio virou alvo de críticas, por adotar um esquema muito
ofensivo.
fato novo e goleada histórica
Piffero após o Inter perder o Gre-Nal por 5 a 0 na Arena do Grêmio (Foto: Diego Guichard/)
Aguirre
levou o Colorado à semifinal da Libertadores, mas não resistiu à queda
para o Tigres, com derrota por 3 a 1 no México. Acabou demitido, numa
busca por um "fato novo", às vésperas do Gre-Nal do segundo turno do
Brasileirão. O Inter acabou derrotado numa goleada histórica por 5 a 0
para o maior rival. Ao final do jogo, assumiu a responsabilidade pela
troca de técnico.
– Sem dúvida. Se tivéssemos ganho, a
decisão seria correta. Como perdemos foi errada. O fato novo não deu
certo – afirmou, para depois completar. – Na realidade, é preciso ver
onde está errado. Acho que a decisão foi correta, talvez o momento não.
Eu assumo a responsabilidade e tomo as decisões. Nem sempre acerto.
Dessa vez errei.
Parte da "Swat" montada para escapar da degola (Foto: Tomás Hammes / GloboEsporte.com)
A
falta de padrão tático, em meio às passagens de quatro treinadores –
Argel, Falcão, Celso Roth e Lisca – desponta como fator direto para a
queda em 2016. Mas a verdade é que o próprio departamento de futebol do
Colorado vivenciou uma enxurrada de transformações e cisões ao longo da
temporada. Remanescente de 2015, Carlos Pellegrini caiu depois do empate
em 2 a 2 com o Fluminense, que também decretou a saída de Falcão.
O
primeiro vice eleito Pedro Affatato assumiu brevemente como vice do
departamento, até dar lugar à "Swat" colorada, força-tarefa convocada
pelo mandatário para livrar a equipe da Série B. E que fracassou, sob o
comando do vice Fernando Carvalho, do diretor de futebol Ibsen Pinheiro e
do executivo Newton Drummond, o Chumbinho.
Enxurrada de polêmicas e "fuga" do rebaixamento
Em
meio ao calvário da saga mal-sucedida para livrar o Inter do primeiro
rebaixamento de sua história, o presidente se viu envolto em meio a uma
série de declarações e posicionamentos polêmicos, todos encerrados com a
queda. Em especial, nesta reta final de Brasileirão. Ao longo da
temporada, o mandatário optou pelo silêncio e pelo afastamento dos
microfones. O GloboEsporte.com resgata algumas delas abaixo:
> Time grande não cai
Em
suas raras manifestações durante o ano, Piffero procurava evitar até
menções à palavra rebaixamento. Às vésperas da derrota por 4 a 2 para o
Cruzeiro, em Minas, o mandatário chegou a ressaltar que o Colorado jamais cairia à segunda divisão.
A justificativa? Sua própria grandeza, como um dos únicos que não
haviam caído, ao lado da Raposa, do Santos, do São Paulo e do Flamengo.
–
O Cruzeiro também é outro time grande. Nós nunca caímos e vamos manter
assim. Torço pelo Cruzeiro e tenho certeza que o Inter também vai sair
dessa situação – disse o presidente, à época.
> Na conta da CBF
Após
um longo período sem falar após as partidas, Piffero rompeu o silêncio
na derrota por 1 a 0 para o Corinthians. E mesmo diante de uma campanha
com um total de 17 derrotas, em que o clube permaneceu 14 sem vencer e
chegou a completar um turno com apenas duas vitórias, o presidente
adotou discurso agressivo. Longe de apontar erros, tratou de vociferar contra a arbitragem, após um pênalti duvidoso em desfavor do Inter, convertido por Marlone.
–
Mais uma vez, o Inter vem a São Paulo e é garfado pela arbitragem. Em
2005 foi assim, 2009 foi e hoje de novo. Três jogos decisivos e nós
violentamente garfado. Pênalti totalmente inexistente, inventado pela
arbitragem. Enquanto houver esperança, vamos lutar. Os jogadores foram
briosos, se esforçaram, mas a conta irá para a CBF mais uma vez –
reclamou.
> Campeonato incompleto
Em
meio ao luto pela tragédia com o avião da delegação da Chapecoense, que
deixou 71 mortos na Colômbia, o elenco colorado, unido, se posicionou
para que não houvesse a última rodada do Brasileirão, por solidariedade e
por abalo com a catástrofe. Após o posicionamento do grupo, o
mandatário interveio e até apoiou a manifestação, com uma ressalva: não
abriria mão da permanência Série A. O campeonato, na visão do dirigente,
ficaria "incompleto".
– O Inter apoia a manifestação dos
jogadores. Estamos abalados por essa catástrofe. Podia ser com qualquer
um. Temos um sentimento que não pode mais ter futebol em 2016. A perda é
muito grande, mas ficamos sujeitos às ordens da entidade. Não estou
abrindo mão (da Série A), só colocando um sentimento. O campeonato
estaria incompleto – disse o mandatário.
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