De Yokohama a Mesquita: Carvalho falha com Swat e sai do Inter por baixo
Dirigente histórico leva Inter às maiores glórias, mas não evita piores decepções
Para o torcedor colorado, Fernando Carvalho era tratado quase como um Deus. É o dirigente mais vitorioso do Inter, aquele que levou o clube à maior glória diante de um adversário gigantesco – o Barcelona, em 2006. Dez anos depois, quem diria que o salvador do clube falharia na luta contra o rebaixamento. De Yokohama ao Estádio Edson Passos, em Mesquita, no subúrbio do Rio de Janeiro, o vice de futebol, ou eterno presidente, sai de cena após o primeiro rebaixamento da história do clube.
O semblante do dirigente ainda após o empate com o Fluminense no dia 11 de dezembro estampava todo o abatimento que absorveu do vestiário ao longo do período em frente ao futebol do clube até a queda. Na entrevista coletiva, assumiu a parcela de responsabilidade, desde agosto deste ano, quando foi chamado às pressas para uma operação "anti-Série B". Nesta semana, publicou um desabafo em seu perfil pessoal no Facebook.
– A convite do presidente, uma situação imposta pelos fatos, me senti na obrigação de aceitar o chamamento para ajudar a resolver uma situação muito difícil. Desde o inicio, sabia que a situação era difícil. Minha ligação com o clube me impunha essa obrigação. Infelizmente, não conseguimos resolver. Fizemos por merecer. Não há culpa de jogador. Os dirigentes são os responsáveis. As causas que saímos de Yokohama a Edson Passos são várias. Mesmo em situações que não merecemos – lamentou
reconstrução ao mundial
Fernando Carvalho enrolado na bandeira colorada em 2006 (Foto: Divulgação)Fernando Carvalho foi presidente do Inter de 2003 a 2006. Foi o dirigente que articulou a reconstrução de um clube e que se tornaria multi-campeão. Com Muricy Ramalho, levaria o Inter ao vice campeonato do Brasileirão, em um 2005 manchado e reclamado até hoje pelo escândalo da "Máfia do Apito", quando 11 jogos foram anulados.
A perda do Brasileirão virou incentivo para o melhor ano da história do clube. Em 2006, o Inter chegou ao ápice. Com Abel Braga como treinador e Fernandão como expoente técnico, foi campeão da Libertadores e do Mundial.
Carvalho deixou a presidência do clube, mas nunca deixou de ser chamado de presidente. Passou a atuar como vice de futebol e manteve a sina de glórias, a partir de uma base forte e que era reconstruída temporada após temporada. Se Fernandão era negociado, o clube contratava D’Alessandro.
multicampeão
Celso Roth e o presidente do Internacional Fernando Carvalho (Foto: Reprodução / Site Oficial do Internacional)Mas o êxtase virou drama. No Mundial de 2010, o Inter chegou a um dos episódios mais vexatórios do clube. Chegou para a disputa do Mundial e caiu na semifinal para o Mazembe, equipe da República Democrática do Congo. Perdia ali a chance de pintar o mundo de vermelho pela segunda vez.
Carvalho deixaria o clube gaúcho em 2011. Mas seguiu como inspiração a novos dirigentes ou como "guru". Era consultado para opiniões, contratações de jogadores e treinadores. Dizia para jornalistas que não voltaria mais.
swat colorada
Fernando Carvalho, Celso Roth e Ibsen Pinheiro na "Swat" do Inter (Foto: Tomás Hammes / GloboEsporte.com)Seis anos depois, Carvalho cedeu. Foi anunciado em agosto deste ano junto com a "Swat" colorada, quando o clube amargava 11 jogos sem vitória e se aproximava do Z-4. Junto com o dirigente, chegaram Celso Roth – para a vaga de Falcão –, Ibsen Pinheiro como diretor de futebol e Newton Drummond, o Chumbinho, como executivo.
– Me colocaram que era necessária minha presença. Fui ouvir meus pares, pessoas com quem comungo minhas aflições. O Ibsen é um deles, já nos tirou de uma situação difícil anos atrás. O Inter é muito importante para a minha vida. Minhas maiores alegrias foram aqui dentro. Desde 1961, minhas maiores alegrias foi o Inter que me proporcionou, e eu não posso deixar, numa hora com essa, não só o Inter, mas meu amigo Vitorio Piffero. Vejo as críticas que são destinadas a ele, muitas justas, outras injustas. O coloradismo falou mais alto – disse Carvalho, à época.
Os resultados não vieram, assim como a mobilização pouco surtiu efeito. O Inter tentou melhorar o rendimento dos atletas com palestras motivacionais, apoio incondicional da torcida no Beira-Rio e discursos fortes no vestiário. Mas sucumbia e não obtinha os resultados necessários, nem mesmo diante dos adversários diretos.
– Nós já passamos por isso. Não é a primeira vez. Dessa vez tá mais dolorido, mais custoso. A gente não manchou e não vamos manchar. É assim, estando presente. Vamos fazer uma guerra santa – comentou, no final de agosto.
Fernando Carvalho em jogo contra o Vitória (Foto: Eduardo Deconto)Em 15 de setembro, talvez, o pior resultado do dirigente junto com Celso Roth: derrota em casa para o Vitória, em pleno Beira-Rio. Time baiano que era comandado por Argel, o treinador que iniciou a temporada no clube.
Os resultados seguiram irregulares. Mas veio a luz após quatro derrotas, como três vitórias em quatro rodadas: contra Figueirense, Coritiba, e Flamengo, sempre no Beira-Rio, além de uma derrota para o Botafogo. Após a vitória sobre o Fla, o Inter respirava fora da zona de rebaixamento.
derrocada final
Fernando Carvalho, ex-vice de futebol Inter (Foto: Tomás Hammes / GloboEsporte.com)Mas a luz virou trevas, e o Inter voltaria amargar a falta de vitórias. Empatou "jogos-chave" como contra Santa Cruz e Ponte Preta, jogo que fez com que Celso Roth fosse demitido.
Carvalho contratou Lisca como ideia de uma remobilização final. Com o novo treinador, perdeu para o Corinthians, graças a pênalti inexistente, e conseguiu vencer o Cruzeiro. Mesmo assim, o time não dependeria mais de si próprio para escapar da degola.
Então, aconteceu a tragédia do voo da Chapecoense. Em uma entrevista, Carvalho cometeu um deslize. Falou em "tragédia particular" contra o Z-4. A frase gerou revolta nacional. E o dirigente admitiu o erro e pediu desculpas.
– Usei um termo equivocado. Usei indevidamente a palavra tragédia. Não é tragédia. O que aconteceu com a Chapecoense foi uma tragédia que não tem volta. No Inter, mesmo que a gente não consiga reverter, a vida vai seguir – afirmou, na época.
Com uma rodada adiada para a semana seguinte, o Inter entendeu que a tarefa se tornaria ainda mais complicada. Carvalho nunca se escondeu de nenhuma entrevista. Sempre deu a "cara a bater", até mesmo à frente do presidente Vitorio Piffero e dos jogadores. Nunca apontou culpados pelo baixo rendimento.
Mesmo assim, Carvalho deixará o clube com um currículo invejável. De alguém que levou o Inter a glórias, mas também amargou as piores decepções. E fica a dúvida: o dirigente voltará a comandar o futebol do clube?
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